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Afundamento do solo em bairros de Maceió vira documentário sob olhar de cineasta argentino

Por Naldo Cerqueira em 21/07/2021 às 14:02:31
Carlos Pronzato retrata drama de quem teve que deixar suas moradias por causa do fenômeno geológico causado pela mineração da Braskem que atinge ao menos 4 bairros da cidade. Imagem aérea mostra imóveis desocupados em bairros afetados por afundamento do solo

O documentarista e escritor argentino Carlos Pronzato, de 62 anos, visitou Maceió neste ano, mas não veio a passeio. A visita foi para a gravação de um documentário que conta histórias de famílias afetadas por rachaduras e afundamento do solo que atingem ao menos 4 bairros da cidade, a maior tragédia geológica já registrada no país (veja o trailer no vídeo acima).

As gravações do filme “A Braskem passou por aqui: a catástrofe de Maceió” começaram em maio. A pré-estreia está marcada para esta quinta-feira (22) em São Paulo. No início de agosto, o documentário deve ser lançado em Maceió, ainda sem data definida.

O fenômeno geológico foi percebido após fortes chuvas e um tremor de terra em fevereiro de 2018 no bairro do Pinheiro, onde surgiram as primeiras rachaduras. Um ano depois, Mutange, Bebedouro e Bom Parto também registraram problemas semelhantes. O Serviço Geológico do Brasil (CPRM) concluiu que a extração de sal-gema feita durante décadas pela Braskem provocou o desastre.

Relembre a cronologia da tragédia geológica em Maceió

A Braskem desenvolveu o Programa de Compensação Financeira e Apoio à Realocação (PCF), que identificou a necessidade de desocupação de 14.394 imóveis por causa do risco de desabamento. Por meio de nota ao G1, a empresa afirma que 95% deste total já foram desocupados e que "o Programa também paga o auxílio-aluguel no valor de R$ 1 mil mensais por pelo menos seis meses e até dois meses após a homologação do acordo de indenização entre a Braskem e a família" (leia na íntegra ao final do texto).

O documentário mostra a revolta e o sofrimento de quem perdeu suas moradias e seu negócios. O filme também traz relatos de geólogos, empresários que perderam seus estabelecimentos e lideranças de movimentos sociais dos bairros Bebedouro, Bom Parto e Pinheiro.

Cineasta lança documentário sobre tragédia ambiental em bairros de Maceió afetados por rachaduras

Arquivo pessoal

Carlos Pronzato também contou que se interessou pelo caso quando assistia a uma live de movimentos sindicais relatando a situação dos bairros afetados. Nesse período, o documentarista estava na Bahia em um processo de gravação de outro documentário.

“Eu estava terminando de fazer um documentário na Bahia quando assisti a uma live, em abril, sobre esse tema com várias pessoas de vários países. Pessoas de movimentos sindicais falavam sobre os bairros, sobre a passagem do VLT que foi suspensa no Bebedouro por causa do solo instável. Percebi que não se via notícias sobre essa região, o tema tinha ficado um pouco de lado, afastado das notícias do dia. Comecei a pesquisar sobre isso”, relatou Pronzato.

Ele disse que, nas entrevistas para o filme, algumas pessoas relatavam que não se conformavam com a situação. “É difícil. Tem muitas pessoas que não conseguem alugar casas em outros bairros porque é muito caro”, disse o documentarista.

O longa-metragem de 80 minutos foi realizado de forma independente, com apoio de movimentos sociais e de sindicatos de Maceió como, por exemplo, o Sindicato dos Trabalhadores da Universidade Federal de Alagoas (SintUfal), que teve seu espaço interditado por causa das rachaduras. Pesquisadores alagoanos também o auxiliaram na empreitada audiovisual.

'Nunca tinha visto algo do tipo', disse o cineasta

Equipe com o documentarista nas primeiras gravações para o filme em Maceió

Arquivo pessoal

A temática ambiental está presente na maioria dos trabalhos do argentino. Ele veio morar no Brasil no início dos anos 90 e trabalha como cinema desde essa década. Atualmente morando em São Paulo, diz que os mais de 40 curtas e longas que fez têm um sentido social ligado a levantes populares, questões ambientais e políticas. A autonomia das pessoas para se manifestarem também é uma das linhas que o documentarista segue em seus projetos.

Durante as pesquisas de campo em Maceió, Pronzato contou que se impressionou ao ver os imóveis desocupados. Segundo o cineasta, a equipe encontrou com ele uma cidade perdida, um cenário de guerra.

“Impactante, ver as rachaduras é impressionante. Conseguimos driblar os tapumes para entrar nos imóveis. Não conseguimos entrar nas minas. É impressionante, e a noite piora porque não conseguimos fazer entrevistas. Durante os percursos, encontramos uma cidade perdida. Apesar da compensação da Braskem, os moradores perderam sua história. Teve gente que nasceu no local e perdeu tudo; é muito triste. Isso por causa da negligência de uma empresa, pois tinham tudo para prever a tragédia. Nunca tinha visto algo do tipo”, disse ele.

O documentarista já realizou trabalhos sobre o apagão de Amapá e sobre a tragédia de Brumadinho, que vitimou centenas de pessoas.

Cena do documentário de cineasta sobre tragédia ambiental em bairros de Maceió afetados por rachaduras

Arquivo pessoal

Leia abaixo a íntegra da nota da Braskem

A Braskem vem cumprindo rigorosamente as ações de apoio à desocupação das áreas de risco em Maceió, previstas no acordo assinado em janeiro de 2020 entre a empresa, o Ministério Público Federal (MPF), Ministério Público do Estado de Alagoas (MPE), Defensoria Pública da União (DPU) e Defensoria Pública do Estado de Alagoas (DPE).

Criado em novembro de 2019 para atender aos moradores da área de resguardo em torno dos poços de sal e estendido aos moradores da área de desocupação definida pela Defesa Civil, o Programa de Compensação Financeira e Apoio à Realocação (PCF) identificou um total de 14.394 imóveis, dos quais 13.641 já estão desocupados, ou seja, cerca de 95% do total.

Depois de ter seu imóvel identificado e agendar a mudança, que é paga pelo Programa, cada família recebe um auxílio-financeiro no valor de R$ 5 mil para ajudá-la na locação do imóvel, na negociação com as imobiliárias e outras necessidades que possam aparecer. O Programa também paga o auxílio-aluguel no valor de R$ 1 mil mensais por pelo menos seis meses e até dois meses após a homologação do acordo de indenização entre a Braskem e a família. Caso a família comprove a necessidade de valores adicionais para alugar um imóvel no padrão compatível com o que foi desocupado, a Braskem faz um adiantamento da indenização, no valor de R$ 6 mil. O Programa também oferece apoio psicológico aos moradores, serviço que não foi suspenso mesmo com a pandemia – as consultas passaram a ser feitas online.

Ainda na área de desocupação, comerciantes e empresários com atividade econômica não formal ou os microempreendedores individuais têm direito a um adiantamento da compensação no valor de R$ 10 mil, para cobrir gastos adicionais com a realocação. Para empresas de micro, pequeno, médio e grande porte, o valor a ser antecipado é proporcional ao porte de cada negócio. Também é possível solicitar a antecipação de custos comprovados por orçamentos. Comerciantes e empresários têm apoio para a realocação, com a mudança inclusive dos equipamentos das empresas.

Paralelamente à realocação, o acordo estabelece um cronograma de ingresso dos moradores no fluxo de compensação conforme as zonas do mapa de desocupação, entre outras medidas. Até o final do mês de junho, 5.251 mil famílias receberam sua compensação financeira, e o programa registrou 7.519 propostas de indenização apresentadas, com índice de aceitação superior a 99%. A Braskem pagou R$ 1,1 bilhão em indenizações, auxílios-financeiros e honorários de advogados. O prazo para pagamento é de cinco dias úteis após a homologação do acordo pela Justiça.

O cumprimento do Termo de Acordo é fiscalizado pelas autoridades, e o programa vem sendo constantemente aperfeiçoado a partir do processo de escuta à população – feito pelas autoridades e pela empresa. Nessa evolução, dois aditivos e 24 termos de resoluções foram firmados entre as partes, para regulamentar e aprimorar aspectos específicos do programa. A resolução mais recente estabeleceu prazos de referência para os pedidos de reanálise.

Moradores de bairros afetados por rachaduras relatam situação

Moradores de Maceió bairros afetados por rachaduras relatam situação da região

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O documentarista e escritor argentino Carlos Pronzato, de 62 anos, visitou Maceió neste ano, mas não veio a passeio. A visita foi para a gravação de um documentário que conta histórias de famílias afetadas pelo afundamento do solo que atinge ao menos 4 bairros da cidade.

*Estagiário, sob supervisão de Cau Rodrigues

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Fonte: G1AL

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