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Seresteiros da Pitanguinha anunciam fim da associação cultural em Alagoas

Por Naldo Cerqueira em 21/06/2021 às 20:58:32
Grupo cultural de Maceió não realiza eventos desde o começo da pandemia. Seresta foi criada em 1994. Baile de máscaras dos Seresteiros da Pitanguinha no ano de 2013

Divulgação/Assessoria

Depois de quase 27 anos, o grupo Seresteiros da Pitanguinha, de Maceió, anunciou que encerrou as atividades por tempo indeterminado. Em entrevista ao G1 nesta segunda-feira (21), o vice-presidente Alfredo Gazzaneo Brandão disse que a pausa não é definitiva e que os motivos foram a pandemia, os gastos e um furto na sede.

Os Seresteiros da Pintaguinha realizaram muitos desfiles pelas ruas do bairro que deu nome ao grupo e também o tradicional baile de máscara. As despesas eram custeadas pelos ingressos dos eventos, que estão suspenso desde o começo da pandemia e sem previsão de retorno por causa do ritmo lento de vacinação contra a Covid-19.

Alfredo Gazzaneo é um dos fundadores dos Seresteiros. Ele escreveu um artigo sobre o fim da organização cultural (confira a íntegra ao final do texto).

"É com tristeza que eu escrevi a nota. Me doeu muito. Foi muito doído mesmo e ainda dói até hoje, mas é uma questão de consciência. Nós estamos há mais de dois anos sem poder nos encontrar por conta dessa pandemia. Uma sede alugada com um valor alto de aluguel, entregue às baratas, sem ninguém poder frequentá-la. Só despesas. Para culminar tudo isso, tivemos um roubo lá na sede, onde os ladrões entraram e levaram tudo o que nós tínhamos de valor, toda nossa parte de som, mesa de som, caixas de som, alto falantes, amplificadores, microfones, todos os instrumentos da Seresta", disse Gazzaneo.

"Isso [materiais que foram furtados] foi adquirido com muito sacrífico, porque a Seresta sobrevive dos eventos que nós fazemos e cobramos e também com o sustento do presidente. Isso não quer dizer que a Seresta da Pitanguinha tenha morrido, porque como diz o nosso presidente, nós, incialmente, não tínhamos sede, não tínhamos instrumentos, não tínhamos os bailes e cantávamos na rua alegremente. Nada impede que a Seresta retorne a sua versão inicial de seresta de rua, mas a Organização Cultural Seresteiros da Pitanguinha, essa sim, essa está encerrada", disse.

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É CHEGADA A HORA

A vida não é feita só d alegria e felicidade. Dela também fazem parte a tristeza, a melancolia e a saudade.

Para tudo existe um momento, o tempo certo. Difícil é aceitar que não dependem da nossa vontade. Estão previstos, determinados mas não temos a capacidade de perceber como, quando e por que. Simplesmente acontecem e entristecem, magoam e deprimem.

É este o meu sentimento, neste momento. Assistir ao final de um espetáculo, ao encerramento de um ciclo, ao desfecho de uma rica história na qual sou um dos atores, não fazia parte dos meus planos.

Presenciar o fechamento das cortinas é muito diferente da emoção de vê-las se abrir. Sair de cena, para quem se sente um artista, é muito triste, principalmente quando tomamos consciência de que é o último ato, o fim da temporada.

Mais uma ação negativa dessa louca pandemia que mudou radicalmente a vida de todos nós. Mexeu com o emocional e com o financeiro trazendo consequências negativas para a maioria das pessoas.

Voltar à nossa sede, depois da visita dos invasores, foi deprimente.

Não sei como denominá-los: se os chamo de meliantes, arrombadores, ladrões, ou se, preferindo imaginá-los nossos fãs, do tipo que avançam querendo tirar até o sangue dos seus ídolos, de loucos, por terem feito essa invasão, cometido essa violência, deixando limpas as salas e os espaços antes recheados de bens materiais e, de lembranças, conseguidos ao longo do tempo.

Nossa Organização se mantém através de recursos provenientes da realização de eventos, do esforço pessoal e financeiro do nosso presidente Emmanuel Fortes e da dedicação dos seus membros e de pessoas como Irene Lyra, que nos seus noventa e dois anos de idade, assume totalmente a responsabilidade da administração e controle da nossa sede.

Não temos aporte financeiro nem através de contribuição dos seus membros, nem do poder público. Arte e cultura no nosso estado não são devidamente valorizadas e muito menos, subsidiadas.

Como já falei anteriormente, para tudo existe um momento, o tempo certo, e chegou o nosso.

Tenho que entender, aceitar e, a partir de agora, administrar, seguindo em frente. Para trás ficarão as lembranças e as realizações dos quase vinte e oito anos de luta, de conquistas, empenho e dedicação em prol da arte e da cultura da nossa terra.

As primeiras sextas-feiras de cada mês, que estiveram mudas durante esses dezoito meses de reclusão, sem perspectiva concreta de reabertura das porteiras, de retomada do ritmo e da normalidade da vida, emudecem agora, de forma definitiva.

Que falta farão os pierrôs e colombinas e que falta faremos aos nossos foliões que esperavam ansiosamente a chegada do carnaval para pular no maior baile de Maceió? Festas sadias, onde as famílias brincaram durante dezessete anos num clima de paz, onde reinava a segurança e a alegria!

E o que dizer dos nossos artistas, que estão sem palco, sem casas de espetáculos, sem espaços para realização de eventos?

Impressiono-me com a intensidade que sinto a grandeza do nosso trabalho na hora em que tomo consciência de que acabou o tempo, de que chegou ao fim.

Sentirei muita falta do convívio do grupo, da família que é a nossa Organização.

Conforta-me saber que além das saudades deixaremos a certeza do cumprimento do nosso papel como fomentadores de cultura e disseminadores da arte e da alegria dentro e fora do Estado de Alagoas.

Enfim, sai de cena a Seresta da Pitanguinha, sem violões, cavaquinhos e percussão. Apenas seu estandarte faz evoluções provocadas pelo vento frio e forte da última caminhada.

Pelas ruas da Pitanguinha, seus cantores acompanham o cortejo, mudos, em respeito aos milhares de mortos, vítimas deste mal tão devastador, que sufocou e matou também nossos sonhos.

Maceió, 14 de junho de 2021

Alfredo Gazzaneo Brandão

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Fonte: G1AL

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