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Empresário que sofreu homofobia em academia de Maceió cobra punição de personal trainer: 'Tentou me bater duas vezes'

Por Naldo Cerqueira em 18/07/2022 às 14:28:06
Vítima diz que era xingada constantemente por um personal trainer que só não o agrediu fisicamente porque foi contido. Empresário que sofreu homofobia em academia em Maceió cobra punição para agressor; homofobia é crime no Brasil

Desde que denunciou a homofobia sofrida dentro da academia Top Fitness & Wellness, no bairro da Pajuçara, em Maceió, o empresário e produtor cultural Patrese Calheiros diz que tem medo de voltar a treinar e cobra punição do personal trainer que quase o agrediu fisicamente. "Ele tentou me bater duas vezes"

Em entrevista ao g1, Patrese contou que já ouvia frases homofóbicas de um personal trainer no local há cerca de dois anos, mas que no dia 23 de junho deste ano o agressor o xingou diretamente e só não o agrediu porque foi contido pelo personal da vítima. Após esse episódio, Patrese denunciou o caso à Polícia Civil e a Comissão de Diversidade Sexual e Gênero da Ordem dos Advogados do Brasil seccional Alagoas (OAB/AL).

Por segurança, a vítima e sua advogada decidiram não divulgar a identidade do agressor nesta reportagem nem fotos da vítima.

A reportagem do g1 tentou contato com a academia TOP para saber quais providências foram tomadas após o ocorrido, mas não recebeu resposta até a última atualização dessa reportagem.

O empresário contou que começou a frequentar a academia TOP quando voltou de Los Angeles, nos Estados Unidos, no início de 2020. Ele disse que o personal trainer sempre se mostrou incomodado com a sua presença.

"No final de 2020, ele falou para o meu personal, mas se dirigindo a mim, 'não brinca comigo não, que eu sou homofóbico'. Eu fiquei indignado com aquilo que estava ouvindo. Na hora, eu disse 'bicho, não fale isso não, que homofobia é crime e você pode ser preso'. Aí ele não gostou e saiu me xingando", contou.

A partir desse episódio, a situação foi piorando, até a última agressão no mês de junho. A confusão começou do mesmo jeito que as implicâncias anteriores, sob pretexto de querer usar a máquina que em que o empresário estava fazendo seus exercícios.

"Eu estava treinando com o meu personal trainer e quando faltavam 10 minutos para acabar meu treino, ele [o agressor] chegou e disse que a gente tinha que sair da máquina em que eu estava fazendo exercício. O meu personal é super gente boa e disse para ele revezar a máquina, mas ele não queria revezar, queria que a gente saísse", relatou Patrese.

Contrariado pela vítima ter se negado a sair da máquina, o personal trainer intensificou as agressões.

"Me chamou de merda. Disse 'você é um merda aqui'. Ele continuo me agredindo, falando palavras de baixo calão e, do nada, disse para mim 'eu vou dar o que você quer, menina'. Quando ele falou isso para mim, eu fiquei muito nervoso. Foi em tom de ameaça. Ele estava me ameaçando. Eu falei 'repete o que você está falando, você está me ameaçando?'. Eu comecei a falar alto para que as pessoas ao redor ouvissem, porque ele estava me ameaçando ali dentro da academia, com tom homofóbico", relatou.

"Ele não gostou e partiu para cima de mim para me bater, no meio de todo mundo. O meu personal trainer foi a única pessoa que interferiu, segurou ele para não me bater. Eu não saí do local, mantive a postura, a cabeça erguida e ele [agressor] saiu xingando. Ele saiu, mas voltou me xingando e partiu de novo para me bater. Ele tentou me bater duas vezes. Mais uma vez o meu personal segurou ele", disse Patrese.

Vítima de homofobia cobra punição do agressor

No Brasil, a homofobia passou a ser criminalizada em 2019. O Supremo Tribunal Federal (STF) entendeu que atos preconceituosos contra homossexuais e transexuais devem ser enquadrados no crime de racismo.

"Eu tenho orgulho de ser gay. Eu não tenho vergonha de ser quem eu sou. As pessoas não podem sair falando, ameaçando, só porque você é diferente delas", afirmou Patrese.

O empresário disse que, assim que terminou o treino no dia da última agressão, procurou funcionários da academia e pegou o contato do gerente para pedir que alguma providência fosse tomada, mas ficou frustrado com a falta de apoio que recebeu.

"Foi outra decepção que eu tive. O gerente disse 'ok, vá fazer o seu B.O. e notifique a academia'. Eu disse que já estava notificando a academia. Depois da ligação, eu tive certeza que teria de ir à polícia, porque, se eu não fosse, a academia não iria fazer nada", lamentou.

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Acompanhado da advogada Elijanny Farias, Patrese participou de uma reunião com um dos proprietários da academia.

"A gente propôs ao dono que eles se retratassem e criassem uma campanha na academia contra homofobia e qualquer tipo de discriminação e a gente quer uma punição [para o agressor]. O dono aceitou fazer a retratação, mas não tem interesse em punir o agressor", afirmou o empresário.

'Não durmo mais direito'

Desde então, Patrese sofre com o medo e mais consequências das agressões. No dia em que quase foi agredido, ele já saiu da academia assustado.

"Eu presto muita atenção quando estou chegando e saindo dos lugares, porque eu estou com muito medo de ele fazer alguma coisa comigo".

Toda essa situação tem afetado a rotina e até o sono do empresário, que deixou de frequentar a academia com medo de sofrer mais violência.

"Eu não durmo mais direito. Eu entrei em uma tristeza, uma depressão, porque é muito, muito triste o que aconteceu. Eu não fiz absolutamente nada. Eu fui treinar com o meu personal, as pessoas me conhecem, sou uma pessoa querida. Vou lá, treino uma hora e vou embora e, do nada, sou agredido. É muito revoltante", afirmou.

Até o personal trainer de Patrese foi afetado pela situação, porque acabou perdendo um cliente. "Eu parei de malhar, parei de ir para a academia, porque eu tenho medo desse cara, de ter outra confusão com ele na academia. O meu personal perdeu um cliente, nós somos vítimas, mas estamos sendo punidos e o cara [o agressor] continua lá dentro".

Luta contra a homofobia

Questionado se já tinha sido vítima de homofobia em outro momento da vida, o empresário afirmou que, por ser homossexual, convive com o preconceito desde sempre.

"Eu sofro homofobia desde quando eu era criança. Eu sofro homofobia desde antes de eu saber que era gay, porque, infelizmente, a nossa sociedade é homofóbica. Hoje vejo minha história de luta, de me aceitar e estar bem comigo mesmo, porque eu não tenho vergonha de ser gay", disse Patrese.

A vítima quer transformar as dores causadas pelo agressor em luta contra a homofobia, "para que isso não volte a acontecer, para que pessoas como eu não passem pelo que eu passei".

"O tom aqui é de querer educar, querer mudar esse sistema, tentar acabar com esse preconceito. Homofobia é crime".

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